1960: DOMÍNIO "COMUNISTA" NA EUROPA

 
Logo da Euro 1960.


    Corria o final da década de 50, e a Copa do Mundo era um sucesso. Com quatro edições realizadas até 1954, o torneio vinha crescendo em popularidade e importância, com América do Sul e Europa dividindo o protagonismo, com dois títulos para cada lado. No entanto, antes mesmo da primeira bola rolar pela Copa do Mundo, a ideia de uma competição somente entre seleções europeias já havia sido ventilada. Henri Delaunay, secretário-geral da federação francesa, tomou a iniciativa do projeto em 1927, que logo foi rejeitado. No entanto, após a criação da UEFA naquele ano de 54 e a reconstrução da Europa no pós-guerra, criou-se o cenário perfeito para a criação do torneio. Pena que seu idealizador não pôde ver o projeto pronto, já que morrera em 1955. Entretanto, seu filho, Pierre Delaunay, cumpriu o legado do pai, substituindo-o no comitê de organização do campeonato.

    Marcada para iniciar suas eliminatórias em 1958, com o torneio final dois anos depois, outro desafio apareceu para dificultar a aplicação da competição: o baixo número de equipes interessadas em participar. Com apenas 17 países inscritos, o torneio corria risco de ficar esvaziado, já que seleções importantes como Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália não assinaram a ficha de inscrição. Com um número tão irregular de equipes, o regulamento era bem diferente, em que oito equipes disputariam as quartas de final após playoffs. Desses oito times sobrariam quatro, que se classificariam para a fase final do torneio, disputada na França em meados de 1960.

    Para um torneio de tiro tão curto, foram necessárias apenas duas sedes: Paris, com o famoso Parc des Princes, atual estádio do PSG, e Marselha, representado pelo Vélodrome. A França foi a primeira a garantir vaga no torneio, eliminando a Áustria com duas vitórias, seguida por União Soviética e Iugoslávia, que passaram por Espanha e Portugal respectivamente. A eliminação espanhola foi provocada por um fato curioso: por motivos políticos, o general Francisco Franco proibiu a viagem da delegação espanhola até às terras soviéticas, ocasionando o W.O. Por fim, a Tchecoslováquia também garantiu vaga no torneio com duas vitórias sobre a Romênia.

    Na noite do dia 6 de julho, as equipes da França e da Iugoslávia entraram em campo no Parc des Princes para fazer história, abrindo a peleja com um jogo que também seria histórico. Logo aos 11 minutos, Galić abriu o placar para os iugoslavos, mas a França mostrou brio, empatando com Vincent apenas um minuto depois e virando o jogo antes do intervalo com um tento de Heutte. No segundo tempo a máquina de gols pôs-se a trabalhar, com Wisnieski e Heutte marcando para a seleção francesa e Žanetić descontando para a Iugoslávia. Com 75 minutos decorridos, parecia que a classificação seria mesmo da França, mas o time do Leste Europeu não se rendeu. Primeiro, Knez marcou o terceiro para os iugoslavos, acendendo a chama da recuperação. Depois, Jerković mostrou todo seu poder de fogo e fez dois gols em dois minutos, revertendo o jogo em favor da Iugoslávia e decretando o placar final de 5 a 4. Até hoje, essa é a partida com o maior número de gols da história da Euro.

    Na outra partida, disputada também no dia 6, a União Soviética teve mais facilidade, passando de forma tranquila pela Tchecoslováquia de Masopust, fazendo um 3 a 0 incontestável. Ivanov duas vezes e Ponedelnik marcaram os gols do triunfo. Três dias depois, a os tchecos entraram em campo novamente, derrotando a França por 2 a 0 pela decisão do terceiro lugar. Bubník e Pavlovič foram os autores dos gols.

    No dia 10, o Parc des Princes recebeu um modesto público de 17 mil pessoas para a final entre União Soviética e Iugoslávia, menos até que nos dois jogos das semifinais. Apresentando um melhor futebol, a seleção iugoslava abriu o placar aos 43 minutos, com uma cabeçada certeira de Galić após cruzamento da direita, sem qualquer chance para Yashin. Com seus três treinadores, a Iugoslávia saía na frente na finalíssima. Tentando responder logo no segundo tempo, os soviéticos buscaram o empate aos 4 minutos, com Metreveli. Bem posicionado, o atacante da camisa 7 pegou o rebote do goleiro Vidinić para colocar o 1 a 1 no placar.

    No tempo regulamentar, viu-se um jogo disputado, com os goleiros trabalhando de ambos os lados, mas com os soviéticos mais "acordados" em campo, o que não foi o bastante para definir o jogo ainda nos 90 minutos. Mas na prorrogação não deu para segurar o ímpeto dos vermelhos: aos 113 minutos, Meskhi fez uma bela jogada pela esquerda e acertou um cruzamento perfeito, na cabeça de Ponedelnik. Sozinho, o dono da 9 soviética testou no canto direito de Vidinić para virar o placar, que não se alterou no pouco tempo que restava.

    Aquele título serviu para alçar a seleção soviética a outro patamar do futebol europeu, entrando no rol de grandes equipes do continente. Além disso, jogadores como Yashin, Ivanov e Ponedelnik ganharam ainda mais notoriedade, criando uma história na seleção para disputar inclusive a Copa do Mundo. Pena para eles que não conseguiram converter esse sucesso no torneio Mundial, parando num Chile inflamado por jogar em casa. Mas aquela geração ainda teria muito a apresentar, participando bem inclusive da Euro seguinte.

    O sucesso da competição em 1960 despertou o interesse de outras seleções, o que se confirmou ao longo dos anos nas competições seguintes. No entanto, o regulamento continuaria de tiro curto, com apenas quatro equipes participantes da fase final. Será que daria para crescer assim? Parecia que o aumento de vagas era inevitável, mas ele ainda demoraria muito a acontecer. Isso é assunto para o próximo post.


Na sexta-feira:
1964 - A primeira anfitriã no panteão dos campeões

Galeria

O time soviético campeão.


Ponedelnik prestes a fazer o primeiro gol soviético.


Os campeões desfilando com a taça pelo gramado do Parc des Princes.


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