IT'S COMING TO ROME
15 anos depois de sua última taça internacional, a Itália está de volta ao lugar que é seu de direito: o topo, pelo menos o topo da Europa. Foram anos obscuros para o futebol italiano, amplificados pela não classificação para a Copa de 2018, mas a Azurra soube superar tudo isso e conquistar a Eurocopa. Contra a Inglaterra, na grande final, foi madura o suficiente para se recuperar de um gol sofrido logo no início, jogar bem e empatar a partida, levando para os pênaltis. Da marca da cal, Donnarumma foi gigante, defendeu duas cobranças e foi vital para calar o abarrotado Estádio de Wembley.
Dentro de campo, foi um bom jogo, movimentado e cheio de tensão desde os primeiros minutos. A Itália veio a campo com o mesmo time da semifinal, com Emerson substituindo o lesionado Spinazzola pela lateral-esquerda, enquanto a Inglaterra mudou de esquema, passando para um 3-4-2-1 com três laterais em campo. O English Team foi mal escalado como sempre, já que os ótimos Grealish, Sancho e Rashford começaram no banco. Vai entender o que se passava na cabeça de Southgate.
Mas o técnico até que começou com estrela. Em menos de dois minutos, a Inglaterra já abria o placar, com Shaw pegando de bate-pronto um bom cruzamento de Trippier pela direita. A jogada do gol começou com uma roubada de bola do próprio Shaw, que passou para Harry Kane fazer linda virada de jogo para o ala direita. Graças ao esquema e à qualidade dos jogadores o primeiro gol saía, explodindo os quase 70 mil torcedores presentes em Wembley.
A Inglaterra aproveitou o gol cedo para se armar defensivamente, visando segurar a vantagem. Aí, foram 47 minutos de italianos tocando a bola e tentando achar espaços, enquanto os ingleses queriam roubar a pelota para acionar o ataque. A dupla de volantes Phillips e Rice cumpria muito bem esse papel, principalmente o último, que arriscava dribles e rompia bem a linha de marcação italiana. No entanto, a dupla de zaga com Bonucci e Chiellini era um obstáculo agora intransponível. Pelo lado da Itália, o toque de bola era bom, o time rondava a área, mas faltavam chances reais de gol. A mais perigosa delas saiu com Chiesa, de ótima partida por sinal, que saiu rompendo pela direita e bateu cruzado, pertinho da trave esquerda de Pickford.
O segundo tempo voltou com esse domínio italiano ainda mais escancarado, pois a Inglaterra já não tinha mais forças para contra-atacar. As coisas para a Azurra ainda melhoraram com a saída do apagado Immobile para a entrada do canhotinho Berardi, mais uma opção de técnica e velocidade pelos lados. Com ele pela direita, Chiesa pela esquerda e Insigne deslocado para o meio, a Itália começou a se assentar, ficando ainda mais à vontade para manter a posse de bola. Nesse sentido, Chiellini e Bonucci jogavam depois da linha do meio-campo.
O gol de empate da Itália já estava "madurando" quando Chiesa teve uma ótima chance, aos 16 minutos, mas seu chute cruzado parou em boa defesa de Pickford, que esticou a mão esquerda para espalmar. Era um ataque contra defesa, que enfim gerou frutos pouco tempo depois: aos 21 minutos, uma confusão na área inglesa em um escanteio e Verratti cabeceou para defesa de Pickford; no rebote, dele e da trave, Bonucci apareceu finalizando, empatando o jogo e vibrando muito. A Itália enfim conseguira seu objetivo.
O restante do tempo regulamentar não teve tantas emoções, com poucas chances e uma Itália ainda mais consciente, apesar do equilíbrio. A despeito das mexidas, parecia que os times estavam esperando a prorrogação, o tão famigerado tempo adicional de 30 minutos. Insigne e Chiesa saíram na Azurra para as entradas de Belotti e Bernardeschi, enquanto Saka entrou no lugar de Trippier no time inglês, desmanchando o esquema com três zagueiros.
A prorrogação foi insossa. Uns chutes italianos daqui, um ou outro inglês dali, mas nenhuma grande chance que mereça destaque. Era um duelo típico de finais, em que ninguém arriscava tanto com a bola nos pés, e a prorrogação virava uma mera véspera dos pênaltis. O momento mais importante veio no minuto final, quando Gareth Southgate colocou Rashford e Sancho em campo com o claro objetivo de bater pênaltis. Lembrando de sua própria experiência em 1996, quando perdera o pênalti decisivo para sua Inglaterra em pleno Wembley, Southgate não queria repetir o mesmo fracasso. Porém, o fantasma da marca da cal voltou para afetar o técnico.
Berardi e Harry Kane converteram suas penalidades, mas Belotti bateu mal, parando em Pickford. O arremate certeiro de Maguire deixou o placar em 2 a 1 para os ingleses, agora donos da vantagem. Mas aí vieram os erros ingleses: Bonucci empatara tudo na terceira cobrança, e Rashford jogou na trave a chance do 3 a 2. Enquanto isso, Bernardeschi convertera o seu, vendo Sancho e Jorginho perderam. Era chegada a hora do último pênalti, a hora da decisão.
De um lado, Donnarumma: com 1.96 de altura, o arqueiro de 22 anos já tem muita experiência internacional, pela seleção e pelo Milan. Do outro lado, Bukayo Saka, 19 anos e iniciando uma carreira promissora. O jovem jogador do Arsenal ainda não havia batido um pênalti na carreira, mas Southgate confiou nele para a batida decisiva. E deu no que deu, Donnarumma fez a defesa, saiu impassível sem se dar conta do feito, conquistando o título para sua Itália. Já Saka desabou em lágrimas, tendo que ser amparado pelos companheiros, também frustrados. Também pudera: com mais de 67 mil torcedores, entre eles 60 mil ingleses, o Estádio de Wembley se calava perante a imensidão italiana.
Valeu pelo ótimo futebol da Azurra, pelo excelente trabalho técnico dos jogadores e, principalmente, pela ótima história de superação de uma equipe que não assustava há tempos. A Itália voltou para ficar, voltou a ser a gigante que é. Que o Brasil abra o olho: os italianos são os favoritos a igualar o penta brasileiro em 2022.
Em tempo:
_ Arbitragem muito boa de Bjorn Kuipers. Adotando um critério de deixar o jogo seguir ao máximo e permitindo o contato, o árbitro holandês foi fundamental para conferir fluidez ao jogo. Fosse aqui no Brasil e o jogo teria 45 faltas, no mínimo.
_ Os ingleses gostam de dizer "It's coming to home" (Está indo para casa) para falar que o futebol estaria voltando para casa com o título do English Team. Pois bem, os italianos fizeram sua adaptação para a frase que estampa nosso título, prevendo que o futebol está indo para Roma.
ITÁLIA 1x1 INGLATERRA (3 a 2 nos pênaltis)
Eurocopa 2020 - Final
Data: 11/07/2021 - 16h
Local: Wembley Stadium, Londres (ING)
Público: 67.173
Árbitro: Bjorn Kuipers (HOL)
Gols: Shaw 2 do 1º; Bonucci 22 do 2º
Cartão amarelo: Barella, Bonucci, Insigne, Chiellini, Jorginho e Maguire
ITÁLIA (4-3-3): Donnarumma (8); Di Lorenzo (5), Bonucci (7,5), Chiellini (C) (7) e Emerson Palmieri (6,5); Jorginho (6,5), Verratti (7) (Locatelli, 5,5) e Barella (5,5) (Cristante, 6); Chiesa (7,5) (Bernardeschi, 6), Insigne (6) (Belotti, 5) e Immobile (5) (Berardi, 5,5). Técnico: Roberto Mancini (7).
INGLATERRA (3-4-2-1): Pickford (7,5); Kyle Walker (6) (Sancho, sem nota), Stones (6,5) e Maguire (6,5); Trippier (6) (Saka, 5), Phillips (6), Rice (7) (Henderson, 5) (Rashford, sem nota) e Shaw (7); Mount (5,5) (Grealish, 6) e Sterling (5,5); Harry Kane (C) (5,5). Técnico: Garteh Southgate (4,5).
O craque do jogo: Leonardo Bonucci (Itália) - ótimo na defesa, ajudou muito na saída de bola italiana e ainda marcou o gol de empate, além de contribuir bastante com sua liderança. Menção honrosa para Chiesa, jogador mais lúcido do ataque, Donnarumma pelos pênaltis e pela tranquilidade que passa e Chiellini, pelos mesmos motivos que seu companheiro de zaga, exceto o gol.
O pior em campo: Ciro Immobile (Itália) - mais um jogo da Azurra na Euro terminou com o centroavante da Lazio entre os piores do time. Immobile foi, para não desperdiçar o trocadilho, um jogador imóvel no gramado de Wembley. Entre os que não foram bem, também destaco Di Lorenzo, Saka e, claro, o técnico Gareth Southgate.
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