O RENASCIMENTO ITALIANO
Desde a precoce eliminação na fase de grupos da Copa de 2010, a Itália já não era mais a mesma. Desacreditada, com um campeonato em crise e poucos bons valores que surgiam, a Squadra Azzurra sofreu muito nos últimos anos, caindo cedo demais e até não participando de competições importantes. Tudo bem que o time italiano até foi vice da Euro em 2012, quando foi pisoteado pela Espanha na final, mas as eliminações na fase de grupos da Copa de 2014, a queda contra a Alemanha na Euro 2016 e a não participação na última Copa deixaram marcas. E hoje, sob a tutela daquele que começou a revolução na Itália, Roberto Mancini, voltou ao panteão das grandes seleções ao avançar contra a Bélgica, outrora favorita. O título pode até não vir, mas a vitória de hoje foi muito importante para essa ressurreição, e também por como ela foi construída.
Dentro de campo, foi um jogaço. De um lado, a Itália escalada no seu habitual 4-3-3, com Chiesa tomando a vaga de titular pela ponta direita no lugar de Berardi. Já a Bélgica tinha o desfalque de Hazard, lesionado contra Portugal nas oitavas, mas contava com Lukaku e De Bruyne, sendo que este último era dúvida até antes do jogo. Escalando o time no 3-4-2-1, Roberto Martínez fez diferente, apostando no jovem e veloz Doku como atacante pela esquerda, municiando Lukaku.
O primeiro tempo foi empolgante. Ficando um pouco mais com a bola, a Itália exercia um jogo um pouco mais direto, controlando o jogo, enquanto a Bélgica sempre saía bem com força e velocidade quando roubava a bola. Os italianos até abriram o placar cedo, com 12 minutos, mas foi marcado impedimento no lance, sintoma do perigo que cada ataque da Itália representava. Por sua vez, ancorada em um De Bruyne não tão participativo e um Doku nervoso, a Bélgica pouco conseguia acionar Lukaku, sempre acossado pela marcação implacável de Chiellini. Os belgas só começaram a incomodar a partir dos 20 minutos, colocando Donnarumma para trabalhar: primeiro, De Bruyne partiu bem com a bola e chutou forte, cruzado, buscando o canto, mas o goleiro italiano se esticou todo e fez uma defesaça. Quatro minutos depois, na primeira vez em que Lukaku vencera Chiellini, o centroavante belga bateu cruzado de esquerda, mas Donnarumma novamente estava lá para salvar. Naquele momento, era o jogo da ofensividade contra a eficiência: se a Itália ficava com a bola e tentava construir, a Bélgica chegava pouco, mas sempre com perigo.
Foi aí que veio o gol italiano. Em uma falta cobrada rápido, a zaga belga se virou bem apesar da hesitação, mas Vertonghen perdeu a bola na entrada da área para Verratti, que acionou Barella na área. Acossado por dois marcadores, o jovem volante italiano conseguiu superar a marcação e bater bonito, cruzado, no canto direito de Courtois. Era o gol para incendiar ainda mais o jogo em Munique, que explodiu de vez aos 44, quando Insigne teve todo o espaço do mundo para receber a bola no meio-campo, avançar, cortar Tielemans e acertar um chute perfeito, maravilhoso, no ângulo esquerdo de Courtois. Mesmo esticando seus 1,99 m de altura, o arqueiro belga não conseguiu alcançar.
Mas a Bélgica é a Bélgica. Apenas um minuto depois, Doku acertou sua primeira jogada individual no primeiro tempo, usando sua velocidade para avançar para cima de Di Lorenzo, sendo derrubado na área. Pênalti bem marcado pelo árbitro esloveno. Na cobrança, Lukaku, que não jogava tão bem, relembrou os duelos de sua Inter contra o Milan de Donnarumma e bateu no meio, tranquilo, para diminuir o placar. Após um primeiro tempo sensacional, a sensação era de que a Bélgica poderia vir mais confiante, pois conseguira diminuir a vantagem ainda nos 45 minutos iniciais.
Era difícil que o ritmo do primeiro tempo se mantivesse, e foi o que aconteceu. Privilegiando um pouco mais a posse de bola, a Itália tentava construir jogadas pelos lados, mas esbarrava na marcação belga, o que a obrigava a chutar de fora da área. Já a Bélgica crescia cada vez mais, potencializada pela confiança de Doku no jogo, principal nome da equipe, que infernizava Di Lorenzo pela ponta esquerda. Foi com ele que começou a grande chance belga no primeiro tempo, em que o camisa 25 passou pelo lateral adversário e passou para De Bruyne, que cruzou rasteiro achando Lukaku na segunda trave. Com a certeza do gol na mente, o centroavante bateu de direita, mas Spinazzola estava lá na hora e no lugar certo para salvar. Dada a vibração e a festa italiana, era quase um gol marcado pelo lateral, o que rendeu abraços de comemoração do capitão Chiellini e até um beijinho do goleiro Donnarumma.
A Bélgica ainda levava muito perigo, mas não conseguia finalizar a gol. Enquanto isso, foi da Itália a próxima finalização perigosa, agora com Insigne exigindo boa defesa de Courtois. Era um duelo de ataque contra ataque, ninguém pensando em retrancar. E as mudanças belgas privilegiavam ainda mais essa tônica para o jogo, já que Roberto Martínez sacou peças mais defensivas para colocar jogadores de frente. No entanto, a bola teimava em não seguir a direção certa, batendo na zaga, nos volantes ou em qualquer italiano que aparecesse. Doku continuava infernizando a defesa, mas não conseguia ser tõ efetivo.
A Itália passou por momentos mais difíceis nos quinze minutos finais, principalmente após a lesão de Spinazzola, sozinho, quando arrancou para correr atrás de uma bola. Infelizmente sua lesão foi grave, e como apontava o intenso choro do jogador após o lance, ele não joga mais nessa Eurocopa, e ainda perderá o começo de temporada pela Roma. Para mim, como bom romanista, é uma péssima notícia. Com as substituições acontecendo e a pressão se intensificando, a Itália focou em defender-se, e conseguiu se virar bem. A vitória acabou merecida para aquele time que jogou mais bola, o que encantou mais, o que tem o melhor futebol dessa Euro. E vencer uma favorita, primeira colocada no ranking da FIFA, em um jogo dessa grandeza, é o marco do Renascimento da Seleção Italiana, mesmo que não venha o título.
Em tempo:
_ Pelo lado da Bélgica, De Bruyne não fez uma de suas melhores partidas, mas Thorgan Hazard foi, ao meu ver, a decepção da partida, ficando sumido em vários momentos. Já Doku me surpreendeu pela leveza e qualidade do drible: não fez um bom primeiro tempo, mas ganhou confiança com o pênalti sofrido.
BÉLGICA 1x2 ITÁLIA
Eurocopa 2020 - Quartas de final
Data: 02/07/2021 - 16h
Local: Allianz Arena, Munique (ALE)
Árbitro: Slavko Vincic (SLV)
Gols: Barella 31, Insigne 44 e Lukaku 47 do 1º
Cartão amarelo: Tielemans e Verratti
BÉLGICA (3-4-2-1): Courtois (6); Alderweireld (5,5), Vermaelen (5) e Vertonghen (C) (5); Meunier (4,5) (Chadli, sem nota) (Praet, 6), Tielemans (6) (Mertens, 5,5), Witsel (5,5) e Thorgan Hazard (5); De Bruyne (5,5) e Daku (6,5); Lukaku (6). Técnico: Roberto Martínez (5,5).
ITÁLIA (4-3-3): Donnarumma (7); Di Lorenzo (6), Bonucci (6,5), Chiellini (C) (7,5) e Spinazzola (7,5) (Emerson Palmieri, 6); Jorginho (6), Verratti (5,5) (Cristante, 6) e Barella (7); Chiesa (6,5) (Rafael Tolói, sem nota), Insigne (7,5) (Berardi, 6) e Immobile (4) (Belotti, 5). Técnico: Roberto Mancini (7).
O craque do jogo: Lorenzo Insigne (Itália) - pelas notas o leitor já vê que é difícil apontar apenas um, mas Insigne foi o cara desse jogo, alternando momentos de um atacante veloz com outros em que se comportava como meia, prendendo a bola e ditando o ritmo do jogo. Menção honrosa também para Spinazzola e Chiellini, além do goleiraço Donnarumma.
O pereba do jogo: Ciro Immobile (Itália) - mesmo com sua seleção vencendo, o centroavante Immobile conseguiu ser o pior em campo, prendendo muito a bola, tentando chutar de qualquer jeito e matando algumas jogadas ofensivas. Não esteve num bom dia, mas seu reserva Belotti não conseguiu fazer tão diferente. Na Bélgica, Meunier foi muito mal também.
Comentários
Postar um comentário