TRAVESSÃO CHARRUA
2022 é ano de Copa, então nada melhor que chegar a 1000 publicações aqui no blog relembrando um dos momentos mais sensacionais dos últimos anos nas Copas do Mundo: a épica classificação do Uruguai para as semifinais da Copa de 2010, realizada na África do Sul. Enfrentando a forte Gana no lindo estádio Soccer City, o Uruguai conseguiu buscar um empate no tempo normal e, após passar por maus bocados na prorrogação, acabou se classificando nos pênaltis, com direito a cavadinha de Loco Abreu. Vamos relembrar!
O leitor já deve ter passado por diferentes textos, vídeos e análises do que foi aquele jogo, então não é preciso detalhá-lo aqui. Todos lembram do gol de Muntari, que abriu o placar ao fim do primeiro tempo, e do golaço de falta de Forlán, que decretou o 1 a 1 com dez minutos da etapa final. Mais difícil ainda esquecer da emocionante prorrogação, em que Gana jogou melhor e teve aos seus pés a chance da redenção no último lance, mas a bola de Asamoah Gyan caprichosamente acertou a trave. Essas são cenas que não dá pra esquecer, principalmente quem viveu aquela tarde/noite de 30 de junho de 2010, seja no estádio ou pela televisão. Por isso, nossa intenção aqui não é analisar a partida, mas relembrar aquele lance gravado em nossa rotina e cujo roteiro jamais esqueceremos: a defesa de Suárez e a sobrevida dada a um Uruguai que parecia entregue.
Primeiro, claro, os antecedentes: depois de 8 anos, o Uruguai voltava a uma Copa, mas o time de Óscar Tabárez não inspirava temor nenhum nos adversários, pois estava longe de ser um dos melhores da Copa. A própria seleção uruguaia, como instituição, já não era mais a mesma: depois do bicampeonato de 1930 e 1950, nunca mais o time charrua chegou como favorito em uma Copa, fazendo campanhas decepcionantes. A chegada da Celeste na semifinal seria, então, uma surpresa.
Do outro lado, a Gana também surpreendia. Em sua segunda Copa seguida, Gana parecia ter um time mais equilibrado e técnico que em 2006, quando fora eliminada pelo Brasil nas oitavas. E, com a queda das outras cinco esquadras na primeira fase (África do Sul, Nigéria, Argélia, Camarões e Costa do Marfim), um continente inteiro era ganês desde criancinha. Assim, o selecionado de Gana no gramado do Soccer City representava não só uma nação, mas todo o povo africano. Por esse ideal e por bater o recorde de seleção africana a alcançar a fase mais longeva da Copa do Mundo, Gana aparecia de vermelho e amarelo no gramado do Soccer City.
Depois de tudo que falamos, com gol de Muntari pra lá, o empate de Forlán pra cá, tudo sempre bem assessorado pela bendita Jabulani, veio a prorrogação, e com ela os momentos finais do jogo. Eram 119 minutos e 46 segundos de tempo total quando o árbitro português Olegário Benquerenca marcou uma falta boa para Gana na ponta-direita, uma grande chance para as Estrelas Negras evitarem a decisão por pênaltis e saírem com a classificação na mão.
O árbitro autorizou e Paintsil, o lateral que jogava com apenas uma das mangas da camisa até o pulso, cobrou, e a bola veio fechada na área de Muslera, principalmente depois de desvio de Kevin-Prince Boateng. Vendo que a bola era perigosa, o goleiro uruguaio saiu, mas não conseguiu socar a bola como queria. Assim, ela caiu perfeita nos pés de Appiah, mas Suárez, o centroavante uruguaio salvou. O lance já era incrível aí, mas ainda havia mais: com o corte de Suárez, a bola ainda sobrou na cabeça de Adiyiah, que testou fulminante para o gol. Mas lá estava ele, impávido, forte e elástico: Luisito Suárez. Vendo que era a última chance de seu Uruguai se salvar, o camisa 9 não pestanejou em meter o braço na bola, fazendo uma defesa de handebol. Seu companheiro, Fucile, foi ainda mais "goleiro": deu um salto bonito para trás, erguendo a mão esquerda, mas quem defendeu foi Suárez. Bem colocado, o árbitro português viu a infração e mostrou o cartão vermelho. Era a despedida de Suárez da Copa, e não à toa ele saiu chorando desconsolado de campo.
Seria o último lance do jogo. Na bola, Gyan Asamoah tinha a responsabilidade de carregar um continente inteiro nas costas, levando-o para a semifinal de uma Copa. No gol, Muslera era a última esperança uruguaia, aquele que havia falhado no tempo normal para exercer a salvação na prorrogação. No entanto, nenhum dos dois conseguiria aquilo que queria: caprichosamente, o travessão do gol à direita do Soccer City levou a bolada de Gyan, no meio, forte, em cheio. Bastou isso para o árbitro encerrar a peleja e decretar a necessidade de pênaltis. Suárez, que se dirigia ao vestiário inconsolável naquele instante, prontamente se pôs a sorrir, comemorando aos berros a sobrevida uruguaia. Ele, Luisito, passara de culpado a vilão em questão de instantes.
Nas penalidades, Gyan até fez o seu, mas dessa vez foram seus companheiros quem pecaram. O capitão John Mensah foi o primeiro deles, batendo mal para defesa de Muslera. A seguir, Maxi Pereira errou, dando mais pimenta à disputa, mas Adiyiah, aquele mesmo da cabeçada, foi mais um que parou em Muslera. Assim, Loco Abreu só teve a incumbência de marcar o gol decisivo e comemorar com seus companheiros a classificação. Suárez era o mais sorridente deles, esbanjando alegria e sendo festejado pelos companheiros. A poucos metros dali, aquela felicidade contrastava com a decepção de Gyan, que deixava o campo chorando muito. O peso de um continente foi demais para as costas do camisa 3.
Esse é um dos jogos mais icônicos da história das Copas do Mundo, certamente um dos mais sensacionais que eu já vi. Espero que a Copa do Catar seja rica de histórias e partidas deliciosas como esta, que só o futebol é capaz de fazer. A postagem número 1000 é merecidíssima para um evento tão importante.
Em tempo:
_ É com este texto que inicio a série Retrancopas. Até 18 de novembro, dia do início da Copa do Mundo, traremos histórias, imagens, análises de partidas, personagens e tudo mais sobre esse evento único que é a Copa do Mundo.
URUGUAI 1x1 GANA (4 a 2 nos pênaltis)
Copa do Mundo 2010, Quartas de final
Data: 30/06/2010 - 15h30
Local: Soccer City, Johannesburgo (África do Sul)
Árbitro: Olegario Benquerenca (POR)
Gols: Muntari aos 45' do 1º; Forlán aos 10' do 2º
Pênaltis:
URU: Forlán (fez), Cavani (fez), Scotti (fez), Maxi Pereira (perdeu) e Loco Abreu (fez)
GAN: Gyan Asamoah (fez), Appiah (fez), John Mensah (perdeu) e Adiyiah (perdeu)
URUGUAI: Muslera; Maxi Pereira, Lugano (C) (Scotti), Victorino e Fucile; Arévalo, Diego Pérez, Álvaro Fernández (Lodeiro) e Cavani (Loco Abreu); Forlán e Suárez. Técnico: Óscar Tabárez.
GANA: Kingson; Paintsil, John Mensah (C), Vorsah e Sarpei; Annan; Kevin-Prince Boateng, Kwadwo Asamoah, Inkoom (Appiah) e Muntari (Adiyiah); Gyan Asamoah. Técnico: Milovan Rajevac.
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